segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cascas

Aqui em Curitiba o tempo está melhorando, os dias tem sido mais gostosos, a temperatura está mais clemente. Claro que nunca sabemos como será o comportamento do clima, por mais que a manhã prenuncie um estado ou outro - pode começar ensolarado e limpo e terminar ventoso e gélido.

Com a amenização surgem as sandálias, bermudas, camisetas e casquinhas de sorvete em todas as ruas. Também surge com maior intensidade uma das perenes vergonhas da civilização e maiores tristezas para aqueles apiedados - os moradores de rua.

É muito triste mesmo, ainda mais aqui, onde tudo pode mudar de uma hora para a outra, com vento, chuva e frio - sádicos punhais para aqueles ao relento, sob as poucas marquises desta cidade.

Vendo estas imagens me lembrei de um comentário feito anos atrás entre os ministrados ao término de um dos muitos eventos realizados na igreja em que congregávamos no Rio de Janeiro. Para os que não conhecem, é importante explicar que existem algumas reuniões que são uma espécie de momentos de cura e aprendizado, que devem ser realizados em uma determinada órdem, ficando cada vez mais complexos e profundos.

Ao término do 1o. destes "degraus" há um momento especialmente emocionante, onde os sentimentos que temos para com nós mesmos são externados muito fortemente. No final do segundo destes encontros há outra situação igualmente "pesada", em que nós somos levados a refletir naquilo que pensamos das outras pessoas.

O comentário que foi ouvido na época é que, dada a "evolução" das experiências vividas nos dois primeiros eventos seria de se imaginar que no terceiro e último teríamos, provavelmente, com humildade e compaixão, que banhar mendigos. Bem, não conheço ninguém que tenha atendido a uma destas reuniões portanto não tenho nem idéia do que ocorra no último bloco de atividades.

Mas o que andei pensando estes dias, vendo o que vejo nas ruas, e lembrando desta observação (realizada em compreensível tom de brincadeira, até pelo nervosismo que todos experimentam nestes eventos), é que não somos aquilo que todos, inclusive nós mesmos, vemos em nós.

"My Fair Lady" (1964, com a fantástica Audrey Hepburn) de certa forma mostra a situação (ainda que com toda a brandura e glitter de Hollywood) que eu fui levado a reconhecer: É UM SER HUMANO ALÍ !!!

Pegue um morador de rua encardido, rasgado, barbudo e descabelado, dê-lhe, como se diz, um "banho de loja", e à excessão das cicatrizes e rugas que a dureza e tristeza podem ter deixado, você confundirá esta pessoa com um advogado, caixa de banco, motorista de ônibus, jornaleiro...

Isto é fácil de ver hoje em dia em atrações de televisão como "Garota da Lage" e "Dez Anos Mais Jovem", que pegam pessoas sem condições financeiras para plásticas, botox e outros procedimentos, e, dizendo o mínimo, lhes proporciona uma injeção de auto-estima.

Ok, são programas popularescos, até toscos, mas é interessante ver que além de querer renovar casas e carros a TV está também "remodelando" pessoas. Isto nos mostra e lembra que somos TODOS pele, osso, cabelos, sangue e sonhos.

(Fico imaginando a minha mulher sentada no sofá da sala, laptop sobre as pernas, parando de ler este texto, virando o seu lindo rosto para mim, me fitando com olhar sério sob os óculos de "geek" dela, e dizendo "Ainda não entendí aonde você quer chegar")

Bem, o que eu quero realmente postar é que me dei conta que ao retirarmos mais uma das "cascas" de uma pessoa reparamos que sob o corpo sujo e maltratado de um maltrapilho, ou até mutilado e deformado daqueles que sofreram acidentes ou doenças degenerativas, bem como abaixo da personalidade e da alma de um Adolf Hitler, Ted Bundy, Joseph Stalin, Pol Pot, Napoleão Bonaparte, Augusto Pinochet, Chico Picadinho, Rafael Trujillo, Duvalier (pai e filho), Solano López, Escadinha, Idi Amin Dada, Charles Mason, Kim Il-Sung, Maníaco do Parque, Emílio Garrastazu Médici, Saddam Hussein, Slobodan Milosevic, Fernandinho Beira-Mar, Hugo Chaves, Jack Estripador, Fidel Castro e muitos outros, maiores ou menores ditadores, bandidos e "monstros sanguinários", há um espírito feito a imagem e semelhança do nosso Senhor.

Este está lá, pronto e perfeito, amordaçado pelo corpo e pela alma, é certo, mas está lá !

Esperando apenas que nós venhamos a dar-lhe uma oportunidade de expressar-se, de mostrar-se e, então, conectar-se ao Espírito Santo para a nossa salvação e para a honra e a glória do Cordeiro.

Eu acho que de certa forma isto pode ser a explicação para muitos dos "por ques" que nos perguntamos quase todos os dias, pelo menos a mim explica.

Ainda não entendeu ?

Ora, se você acredita no que está no começo de João 4:24 e com Gênesis 1:26 citado aí acima, você vai compreender que o que sobra é simplesmente casca.

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